domingo, 27 de março de 2011

Tão,tão além...

Sofia,sentada na cama,permanecia imóvel,quase uma estátua.Não tinha forças nem pra se mexer,queria apenas apenas fechar os olhos e imaginar que a cena que ocorrera há alguns minutos atrás,não passara de mais um pesadelo.
A mãe sem pedir licença,como toda boa mãe faria,foi entrando no quarto,uma mão segurando uma pedra de gelo coberta por um pano de prato,pressionava em um olho,de mansinho sentou-se na cama e tocando as miúdas costas da menina,repousou suas mãos trêmulas,vermelhas e arranhadas.
Sofia,que agora se lembrara de mexer o corpo,virou de frente pra mãe ,pegando suas mãos e colocando sobre as dela.Não sabia se chorava por ver  a mãe assim ou por se lembrar das coisas quebradas no chão da sala,do cachorro que latira freneticamente, assustado também e daquele louco com a garrafa na mão todo troncudo,agressivo,sem modos,que agredira a mãe na frente dela.Doía lá no fundo mais ainda saber que o tal louco era seu pai.Não,não eram a mesma pessoa,sem dúvida não era o mesmo João,bom pai e excelente professor de matemática,que a ensinara andar de bicicleta,que chegava com flores,que fazia amor com sua mãe toda noite,que enchia a casa de doces e se empanturrava como criança,que perfumava os ouvidos de todos com os sons de Chico e até dançava feito adolescente ao som dos Stones.Não podia ser o mesmo João que saíra de casa transtornado,xingando Deus e o mundo,ameaçando de morte,qualquer um que olhasse torto,dando um soco no rosto beijado ontem a noite da mãe.Ameaçou sim,matar qualquer um deles,o cachorro querido,a mulher amada e até ela a filha tão adorada e única,e tudo por conta daquele liquido medonho,que era difícil vê-lo mas quando ela o via com o pai,já sabia que com certeza estragaria o dia de todos,como vinha a estragar mesmo que ela não estivesse presente em todos aqueles horríveis dias,por mais que a mãe jurasse chorando que fora a primeira vez em que apanhara dele.
Maria mãe,ótima por sinal,amava ao marido a filha como se estivessem costurados em si,e estavam mesmo,principalmente aquele marido que tanto a fizera sofrer em segredo,que não fosse da primeira,mas de muitas vezes que batera nela a jurava de morte ou a ignorava saindo de casa e voltando dias depois.Maria escondia ou achava que estava escondendo de todos,principalmente da menina,tinha medo de que a filha se revoltasse contra o pai,que era um ótimo homem sóbrio,sem defeitos de bicho com qualidades humanas,e como sentia-se amarga por ver que a garota esteve presente em uma das cenas mais infelizes da vida dos dois,ela teria de salvar a pele dele mais uma vez como sempre fazia.
Abraçando Sofia,prometeu que nunca mais ela veria aquilo de novo,que o pai sofria de uma doença na qual a personalidade mudava e ele perdia o comando,e ficava agressivo,mas que a culpa não era dele,e precisava de um tratamento porque logo iria ficar bom.
A menina como sempre,engolia aquelas mesmas palavras que só eram ditas de formas diferentes mas que distorciam a realidade,uma que ela e a mãe sabiam que iria demorar pra melhorar,só restavam esperar.